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Sites de Redes Sociais: Definições, História e Pesquisa Acadêmica - danah m. boyd e Nicole B. Ellison (tradução/original)

 

Resumo

 

A sites de rede social (social network sites ou SNSs) cada vez mais atraem a atenção de acadêmicos e pesquisadores da indústria intrigados pelo valor potencial (1) e pelo alcance dessas iniciativas. Este tema especial seção temática do Journal of Computer-Mediated Communication reúne o resultado das pesquisas (2) sobre estes fenômenos emergentes. Neste artigo introdutório, nós descrevemos características dos SNSs e propomos uma definição geral. Nós então apresentamos uma perspectiva sobre a história desses sites, discutindo as principais mudanças e evoluções. Após uma breve recapitulação sobre as pesquisas existentes relativas a  SNSs, nós discutiremos os artigos desta seção especial e concluiremos com considerações para pesquisas futuras (3).

 

Introdução

 

Desde a sua chegada, os sites de redes sociais (SNSs) como Myspace, Facebook, Cyworld e Bebo têm atraído milhões de usuários e muitos deles têm integrado esses sites a suas práticas cotidianas. Neste momento, existem centenas de SNSs com diversas funcionalidades tecnologicas, servindo a uma grande variedade de interesses e práticas. Enquanto suas características tecnologicas são razoavelmente consistentes, as culturas que emergem ao redor dos SNSs serão variadas. A maioria desses sites dão sequência a redes sociais pré-existentes, mas outros ajudam desconhecidos a se aproximarem em função de interesses compartilhados, pontos de vista político ou atividades. Alguns sites atendem a audiências diversificadas enquanto outros atraem pessoas com linguagens em comum ou por compartilhar identidade racial, sexual, religiosa ou de nacionalidade. Os sites também variam na medida com que eles incorporam novas informações ou ferramentas de comunicação como a conectividade móvel, uso de blogs e compartilhamento de fotos e vídeo.

 

Acadêmicos de diferentes campos já examinaram os SNSs com o objetivo de entender as práticas, implicações, cultura e significados desses sites, bem como do engajamento dos usuários com eles. Essa seção temática especial do Journal of Computer-Mediated Communication agrupa uma coleção única de artigos que analisam um amplo espectro de sites de redes sociais usando várias técnicas metodológicas, tradições teóricas, e abordagens analíticas. Ao coletar esses artigos nessa edição, nosso objetivo é expor um pouco dos estudos interdisciplinares a respeito desses sites.

 

O propósito dessa introdução é oferecer um contexto conceitual, histórico e acadêmico para os artigos que estão nessa coleção. Começamos definindo o que constitui um site de redes sociais e então apresentamos  uma perspectiva do desenvolvimento histórico dos SNSs, descrevendo-os a partir de entrevistas pessoais e perfis públicos nos sites e suas mudanças ao longo do tempo. Em seguida a isso, revisamos recentes estudos sobre SNSs e tentaremos contextualizar e destacar alguns trabalhos chave. Concluímos com uma descrição dos artigos incluídos nessa seção especial e sugestões para pesquisas futuras.

 

Sites de Redes Sociais: uma Definição

 

Nós definimos sites de redes sociais como serviços oferecidos na Internet* que permitem aos indivíduos (a) construir um perfil público ou semipúblico dentro de um sistema limitado, (b) articular uma lista de outros usuários com quem eles compartilham uma conexão, e (c) ver e navegar <percorrer em sua lista de conexões e aquelas criadas por outros usuários dentro do sistema. A natureza e nomenclatura dessas conexões varia de site para site.

 

Enquanto usamos o termo "site de rede social" [social network site] para descrever esse fenômeno, o termo "sites de redes de sociabilização" [no original: "social networking site"] também aparece no discurso público, e as duas expressões são usadas frequentemente de maneira intercalada. Nós decidimos não empregar o termo "sociabilização" por duas razões: ênfase e escopo. "Sociabilização" enfatiza a iniciação de um relacionamento, frequentemente entre desconhecidos. Ainda que seja possível estabelecer contatos nesses sites, não é a prática principal na maioria deles, nem é o que os diferencia de outras formas de interação mediada por computador [do inglês "computer mediated communication" ou CMC].

 

O que torna os sites de redes sociais únicos não é que eles permitam que indivíduos conheçam estranhos, e sim que eles habilitam os usuários a articular e tornar visíveis suas redes sociais. Isso pode resultar em conexões entre indivíduos que de outra forma não teriam se formado, mas esse frequentemente não é o objetivo, e esses encontros são frequentemente entre "laços latentes" (Haythronthwaite, 2005) (4) que compartilham algumas conexões offline (na vida real). Em muitos dos grandes SNSs, os participantes não estão necessariamente "socializando" ou procurando conhecer gente nova; em vez disso, eles estão principalmente se comunicando com pessoas que já são uma parte de sua rede social inteira. Para enfatizar essa rede social articulada como uma característica organizacional crítica desses sites, nós os identificamos como "sites de redes sociais".

 

Embora SNSs tenham implementado uma ampla variedade de soluções técnicas, a sua espinha dorsal é composta por perfis visível que exibem uma lista articulada de Amigos (5) que também são usuários do sistema. Perfis são páginas exclusivas onde uma pessoa pode "se criar por escrito" (6) (Sundén, 2003, p. 3). Após se inscrever em um SNS, um indivíduo é convidado a preencher formulários contendo uma série de perguntas. O perfil é gerado utilizando as respostas a estas questões, que costumam incluir apresentações tais como idade, localização, interesses, e uma seção "sobre mim". A maioria dos sites também incentiva os participantes a fazer o upload de um foto para o perfil. Alguns sites permitem que os usuários melhorem seus perfis adicionando conteúdo multimídia ou modificando a aparência de seu perfil. Outros, como o Facebook, permitem aos utilizadores adicionar módulos ("Aplicações") que melhoram o seu perfil.

 

A visibilidade de um perfil varia por site e de acordo com a discrição do usuário. Por definição, perfis no Friendster e no Tribe.net estão infestados <são percorridos por mecanismos de busca, tornando-os visíveis para qualquer um, independente de o visitante ter ou não uma conta. Alternativamente, o LinkedIn controla o que um visitante pode ver baseando-se no fato de ele ou ela ter ou não uma conta paga. Sites como o MySpace permitem aos usuários escolher se eles querem que seu perfil seja público ou "somente para amigos". O Facebook tem uma abordagem diferente - por definição, usuários que são parte de uma mesma "rede" podem ver os perfis uns dos outros, a não ser que o dono de um perfil tenha decidido negar permissão para os outros naquela rede. Variações estruturais a respeito da visibilidade e acesso são algumas das principais maneiras através das quais os SNSs se diferenciam uns dos outros.

 

Após cadastrar-se em um site de redes sociais, usuários são estimulados a identificar outros no sistema com quem eles mantêm um relacionamento. O rótulo para essas relações diferem dependendo do site - termos populares incluem "Amigos", "Contatos" e "Fãs". A maioria dos SNSs requer confirmação bidirecional para Amizade, mas alguns não o fazem. Esses laços unidirecionais são por vezes chamados "Fãs" ou "Seguidores" [followers], mas muitos sites os chamam "Amigos", também. O termo "Amigos" pode conduzir a erros de interpretação, porque a conexão não necessariamente significa amizade no senso vernacular do dia-a-dia, e as razões pelas quais as pessoas se conectam são variadas (boyd, 2006a).

 

A exibição pública das conexões é um compenente crucial dos SNSs. A lista de Amigos contém links para o perfil de cada Amigo, permitindo que os visitantes trespassem o gráfico da rede ao clicar através da lista de Amigos. Na maioria dos sites, a lista de Amigos é visível para todos que têm permissão para visualizar o perfil, ainda que haja exceções. Por exemplo alguns usuários do MySpace hackearam seus perfis de forma a esconder os Amigos, e o LinkedIn permite que os usuários optem por não expor suas redes de contatos.

 

A maioria dos SNSs disponibilizam a seus usuários mecanismos para enviar mensagens diretas para os perfis de seus Amigos. Esta funcionalidade tipicamente envolve fazer "comentários", embora os sites usam nomes diferentes para esse serviço. Além disso, os SNSs geralmente oferencem canais de privados de mensagem bem parecidos com os serviços de email pela internet [webmail]. Enquanto as duas formas, mensagem privada e comentário sejam populares na maioria dos maiores SNSs, elas ainda não estão universalmente disponíveis.

 

Nem todas as SNSs começaram desta forma. QQ começou como um serviço de mensagens instantâneas, LunarStorm como uma comunidade, Cyworld como um fórum de discussão, e Skyrock (anteriormente chamado Skyblog) como uma plataforma francesa de blogs, antes de adicionar funcionalidades de SNSs. Classmates.com, um diretório de colegas de escolas lançado em 1995, só começou a suportar uma lista estruturada de amigos depois que os SNSs se popularizaram. AsianAvenue, MiGente e BlackPlanet eram comunidades bem sucedidas entre seus grupos étnicos, porém, com funcionalidades de SNS limitadas antes de seus relançamentos em 2005-2006, quando implementaram estrutura e funcionalidades de SNS.

 

Entre perfis, amigos, comentários e mensagens privadas (scraps), os SNSs diferem muito entre si no que diz respeito a funcionalidades e bases de usuários. Alguns possuem serviços de compartilhamento de fotos e videos. Outros implementaram plataformas para blogagem e mensagens instantâneas. Existem alguns SNSs específicos para o uso em ambiente móvel (via telefones celulares), como o Dodgeball, enquanto alguns SNSs feitos para a Web dão suporte limitado a funcionalidades e interações em ambiente móvel (Facebook, MySpace e Cyworld). Muitos SNSs são direcionados a um grupo específico de usuários, por critério geográfico ou linguístico, muito embora isso não signifique que sua origem tenha a mesma característica. O Orkut, por exemplo, foi lançado primeiro nos EUA com uma única interface em inglês mas os Brasileiros rapidamente se tornaram seu maior grupo de usuários (Kopytoff, 2004). Alguns sites foram planejados e criados para grupos específicos de usuários, a partir de criérios étnicos, religiosos, políticos ou de orientação sexual, ou mesmo por outra característica demográfica. Existem, ainda, SNSs direcionados a cachorros (Dogster) e gatos (Catster), muito embora sejam seus donos que gerenciam os seus perfis.

 

Embora muitos SNSs sejam frequentemente elaboradas para serem amplamente acessíveis, sendo que muitos atraem públicos homogêneos inicialmente, não é incomum encontrarmos grupos que utilizam estes sites para se diferenciarem por nacionalidade, idade, nível educacional, ou outros fatores que tipicamente segmentam uma sociedade. Enquando os SNSs geralmente são projetados para serem amplamente acessiveis, muitoa atraem populações homogêneas inicialmente, então não é incomum encontrar grupos usando sites para se segregarem por nacionalidade, idade, nível educacional, ou outros fatoes que tipicamente segmentam a sociedade (ver Hargittai, nessa edição), mesmo que esta não tenha sido a intenção dos criadores.

 

Uma História dos Sites de Redes Sociais

 

Os Primeiros Anos

 

De acordo com a definição acima, o primeiro site de redes sociais reconhecível como tal foi lançado em 1997. SixDegrees.com permitia aos usuários criar perfis, listar seus Amigos e, a partir de 1998, navegar através de listas de Amigos. Cada uma dessas características existia de alguma forma antes do SixDegrees.com, é claro. Perfis existiam na maioria dos sites de encontros e em muitos sites de comunidades. As listas de contatos do AIM e do ICQ mantinham listas de Amigos, ainda que esses Amigos não fossem visíveis para os outros. O site Classmates.com permitia às pessoas que se afiliassem utilizando o nome de seus colégios ou faculdades e que navegassem pela rede atrás de outros que também fossem afiliados, mas os usuários não podiam criar perfis ou listar Amigos até alguns anos atrás. SixDegrees foi o primeiro a combinar essas possibilidades.

 

O serviço SixDegress promoveu-se como uma ferramenta para ajudar pessoas a se comunicarem e enviarem mensagens umas às outras. Enquanto o SixDegrees atraia milhões de usuários, ele falhou em se tornar um negócio sustentável e, em 2000, o serviço fechou. Olhando para trás, os fundadores acreditam que o SixDegrees estava apenas a frente do seu tempo (A. Weinreich, comunicação pessoal, 11/06/2007). Enquanto as pessoas estavam apenas começando a usar a internet, a maioria não tinha grandes redes de amigos online. Os pioneiros reclamavam que existia pouco a fazer após aceitar os pedidos de amigos e a maioria dos usuários não estava interessada em conhecer outras pessoas.

 

De 1997 a 2001, algumas ferramentas de comunidades começaram a manter várias combinações de perfis e Amigos publicamente articulados. AsianAvenue, Blackplanet, e MiGente permitiram que os usuários criassem perfis pessoais, profissionais e para encontros - usuários podiam identificar Amigos em seus perfis pessoais sem procurar aprovação para essas conexões (O. Wasow, personal communication, August 16, 2007). Da mesma forma, logo após seu lançamento em 1999, o LiveJournal listou conexões unidirecionais nas páginas dos usuários. O criador do LiveJournal suspeita que ele desenhou essa lista de Amigos inspirado nas listas de contatos dos mensageiros instantâneos (B. Fitzpatrick, personal communication, June 15, 2007) - no LiveJournal, as pessoas marcam os outros como Amigos para seguir seus diários e sites. O site de mundos virtuais coreano Cyworld foi lançado em 1999 e adicionou características de SNS em 2001, independente desses outros sites (ver Kim & Yum, nessa edição). Da mesma maneira, quando a comunidade virtual sueca LunarStorm redersenhou-se como um SNS em 2000, continha listas de Amigos, livros de visitas e páginas de diários (D. Skog, personal communication, September 24, 2007).

 

A próxima onda de SNSs começou com o lançamento de Ryze.com em 2001, com o objetivo de ajudar as pessoas a incrementar suas redes de relacionamento para negócios. O fundador da Ryze.com disse que apresentou o site a amigos - principalmente membros da comunidade de negócios e tecnologia de São Francisco, incluindo os empreendedores e investidores de outros SNSs a surgir (A. Scott, arquivo pessoal, 14 de junho de 2007). De uma forma geral, os profissionais por trás do Ryze.com, Tribe.net, LinkedIn, Friendster eram muito próximos, tanto pessoal como profissionalmente. Eles acreditavam que elas poderiam apoiar-se mutuamente sem ser concorrentes (Festa, 2003). No fim das contas, o Ryze.com nunca se tornou um sucesso de massa, o Tribe.net cresceu e atraiu pra si um nicho muito engajado, o LinkedIn tornou-se um poderoso serviço de rede de negócios e o Friendster se tornou o mais importante, porém como a maior decepção da história da internet.  (Chafkin, 2007, p. 1).

 

 

Figura 1. Linha do tempo com as datas do lançamento dos principais SNSs e relançamento de comunidades locais com características SNS

 

Como qualquer breve história de um fenômeno maior, a nossa é necessariamente incompleta. Nas seguintes seções discutimos sobre o Friendster, Myspace e Facebokk, três redes sociais chaves que moldaram o panorama de negócios, cultural e pesquisa sobre o tema.

 

Ascensão (e Queda) do Friendster

 

Lançado em 2002, o Friendster foi projetado para ser um complemento para o Ryze e tinha o objetivo de competir com o Match.com, um lucrativo site de encontros (Cohen, 2003). Enquanto a maior parte dos sites de encontros se concentrava em promover encontros entre estranhos que tinham interesses semelhantes, o Friendster foi projetado para promover o encontro de amigos de amigos, com base no pressuposto de que amigos de amigos podiam formar casais melhores do que estranhos (J. Abrams, personal communication, 27 de março de 2003). Inicialmente, o Friendster ganhou força entre três grupos, que moldaram o site: os blogueiros, os participantes do festival de arte Burning Man e os gays (boyd, 2004). O site cresceu para 300.000 usuários apenas com base na propaganda boca a boca, antes de receber atenção da imprensa tradicional, em maio de 2003 (O’Shea, 2003).

 

Com o aumento da popularidade do Friendster, o site encontrou dificuldades técnicas e sociais (boyd, 2006b). Os servidores e bases de dados do Friendster estavam mal equipados para lidar com o seu rápido crescimento, e o site vacilava regularmente, frustrando os usuários que substituíram o e-mail pelo Friendster. Porque o crescimento orgânico foi fundamental para criar uma comunidade coerente, a avalanche de novos usuários que souberam do site pelos veículos de comunicaçã perturbou seu equilíbrio cultural. Além disso, o crescimento exponencial significou um colapso em contextos sociais: os usuários tiveram que enfrentar seus patrões e ex-colegas ao lado dos seus amigos mais próximos. Para complicar o assunto, o Friendster começou a restringir as atividades dos seus mais fervorosos usuários.

 

A concepção inicial do Friendster restringia os usuários de visualizar perfis de pessoas que estão a mais de quatro graus de distância (amigos de amigos de amigos de amigos). Para visualizar perfis adicionais, os usuários começaram a adicionar conhecidos e desconhecidos interessantes para expandir seu alcance. Alguns começaram a recolher maciçamente Amigos, uma atividade que foi implicitamente incentivada através de uma funcionalidade "mais popular". Os coletores de maior sucesso foram eram perfis falsos representando personagens ficcionais icônicos: celebridades, conceitos e outras entidades. Estes "Fakesters" revoltaram a companhia, que baniu perfis falsos e eliminou a funcionalidade "mais popular" (boyd, in press-b). Embora poucas pessoas realmente tenham criado “Fakesters”, muitos mais desfrutaram dos “Fakesters” para entretenimento ou utilizavam “Fakesters” funcionais (por exemplo, "Brown University") para encontrar as pessoas que eles conhecessem. 

 

A exclusão ativa dos "fakesters" (e de usuários genuínos que escolheram fotos não-realistas) mostrou para alguns que a empresa não compartilhava os interesses dos usuários.  Muitos dos pioneiros saíram por causa de uma combinação de dificuldades técnicas, colisões sociais e uma ruptura da confiança entre usuários e o site (boyd, 2006b).  Entretanto, ao mesmo tempo que isso se esmaecia nos Estados Unidos, sua popularidade explodia nas Filipinas, Singapura, Malasia e Indonésia. (Goldberg, 2007)

 

SNSs chegam ao grande público

 

De 2003 em diante, muitos novos SNSs foram lançados, instigando o analista de software social Clay Shirky (2003) a forjar a expressão YASNS [palavra formada pelas iniciais em inglês de "Mais um serviço de rede social"].  A maioria tomou a forma de sites centrados em perfis, tentando replicar o sucesso do Friendster ou focar segmentos específicos da população.  Enquanto os SNSs organizados socialmente angariam ampla audiência, sites profissionais como LinkedIn, Visible Path e Xing (o ex openBC) focam em executivos. SNSs como o Dogster (T. Rheingold, personal communication, 2 de agosto de 2007) ajuda estranhos a se conectarem baseados em interesses comuns. CAre2* ajuda ativistas a se encontrarem, Couchsurfing conecta viajantes a pessoas com sofás vagos e MyChurch junta igrejas cristãs e seus membros. Além disso, com o crescimento do fenômeno das mídias sociais e de conteúdo gerado pelo usuário, websites focaram em compartilhamento de mídia e começaram a implantar características das SNS transformando-se em SNSs eles mesmos.  Exemplos incluem Flickr (compartilhamento de fotos), Last. FM (hábitos de ouvir música) e YouTube (compartilhamento de vídeo).

 

Com a pletora de startups sustentadas por investidores de risco (7) iniciantes sendo lançados no Vale do Silício, poucas pessoas prestaram atenção ao SNSs que ganhou popularidade em outros lugares, mesmo aqueles construídos por grandes corporações. Por exemplo, o Orkut do Google não conseguiu construir uma base sustentável de usuários americanos, mas uma "invasão brasileira" (Fragoso, 2006) fez do Orkut o SNS nacional do Brasil. O Windows Live Spaces da Microsoft (também conhecido por MSN Spaces), também lançado com morna recepção americana, tornou-se extremamente popular em outras regiões.

 

Poucos analistas ou jornalistas perceberam quando o MySpace foi lançado em Santa Monica, Califórnia, a centenas de milhas de Silicon Valley. Ele foi criado em 2003 para concorrer com sites como o Friendster, Xanga, e Asianavenue, segundo conta o co-fundador Tom Anderson (comunicação pessoal, 2 de agosto de 2007). Os fundadores queriam atrair usuários afastados do Friendster (T. Anderson, comunicação pessoal, 2. de fevereiro de 2006). Depois que surgiram rumores de que o Friendster iria adotar um serviço gratuito (8), usuários postaram mensagens encorajando as pessoas a aderir a outros SNSs, incluindo Tribe.net e MySpace (T. Anderson, comunicação pessoal, 2 de agosto de 2007). Devido a isso, o MySpace conseguiu crescer rapidamente por tirar proveito da fuga dos primeiros usuários do Friendster. Um grupo notável em particular que incentivou outros a mudar foi o das bandas de rock independente, que foi expulso do Friendster por não cumprir os regulamentos.

 

Embora o MySpace não tivesse sido lançado pensando em bandas de rock, elas foram bem acolhidas. Essas bandas da região de Los Angeles começaram a criar perfis, e promotores locais começaram a usar o MySpace para divulgar passes VIP para entrar em baladas disputadas. Intrigado, o MySpace contactou os músicos para ver como eles poderiam apoiá-los (T. Anderson, comunicação pessoal, 28 de setembro de 2006). Bandas não eram a única fonte de crescimento do MySpace, mas a relação simbiótica entre bandas e fãs ajudaram o MySpace a se expandir para além dos antigos usuários do Friendster. A dinâmica de bandas-e-fãs foi mutuamente benéfica: Bandas queria poder entrar em contato com os fãs, enquanto os fãs queriam a atenção de suas bandas favoritas e usaram ligações de Amigos para sinalizar identidade e filiação.

 

Além disso, o Myspace se diferenciou por adicionar regularmente funcionalidades baseadas em demanda de usuários (boyd, 2006b) e por permitir aos usuários personalizar suas páginas. Essa "funcionalidade" surgiu porque o MySpace não restringia que usuáros adicionassem HTML nos formulários que estruturavam seus perfis; uma cultura de copiar/colar códigos surgiu na web para auxiliar esses usuários na geração de perfis e fundos únicos para o Myspace (Perkel, na imprensa).

 

Adolescentes começaram a se inscrever no MySpace em massa em 2004. Diferente de usuários mais velhos, a maioria dos adolescentes nunca estivera no Friendster - alguns entraram porque queriam conectar-se com suas bandas favoritas, outros foram introduzidos ao site por membros mais velhos da família. Conforme os adolescentes começaram a se inscrever, foram encorajando amigos a entrar. Ao invés de rejeitar usuários menores de idade, Myspace mudou sua política de uso para aceitar menores. Conforme o site cresceu, três populações distintas começaram a se formar: músicos/artistas, adolescentes, e o grupo urbano pós-universitário. De modo ostensivo, os dois últimos não interagiam entre si exceto por meio de bandas. Por falta de cobertura da imprensa durante 2004, poucos notaram a crescente popularidade do site.

 

Então, em julho de 2005, News Corporation comprou MySpace por $580 milhões (BBC, 2005), atraindo atenção massiva da mídia. Na sequência, problemas de segurança infestaram o MySpace. O site foi envolvido em uma série de interações sexuais entre adultos e menores, desencadeando ações legais (Consumers Affairs, 2006). Um pânico moral relativo a predadores sexuais se espalhou rapidamente (Bahney, 2006), ainda que pesquisadores sugiram que as preocupações fossem exageradas.

 

Um fenômeno global

 

Enquanto o MySpace atraiu a atenção da maioria dos meios de comunicação nos Estados Unidos e no exterior, os SNSs foram se proliferando e crescendo em popularidade no mundo inteiro. Friendster conquistou as Ilhas do Pacífico, antes de crescer rapidamente na Índia, o Orkut tornou-se o SNS preferido no Brasil (Madhavan, 2007), Mixi atingiu a adoção generalizada no Japão, LunarStorm foi lançado na Suécia, usuários holandeses abraçaram o Hyves, Grono capturou a Polônia, Hi5 foi adotado nos países menores da América Latina, América do Sul e Europa, e o Bebo tornou-se muito popular no Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália. Além disso, a comunicação e os serviços comunitários populares começaram previamente a implementar funcionalidades de SNS. O serviço chinês de mensagens instantâneas QQ tornou-se num piscar de olhos o maior SNS mundial quando adicionou perfis e fez amigos visíveis (McLeod, 2006), enquanto a ferramenta fórum Cyworld conquistou o mercado coreano, introduzindo homepages e amigos (Ewers, 2006).

 

Serviços de blog com recursos completos de redes sociais também se tornaram populares. Nos EUA, serviços de blog com recursos de redes sociais, como Xanga, LiveJournal e Vox, atraíram grandes audiências. O Skyrock reina na França, e o Windows Live Spaces domina diversos mercados no mundo, incluindo México, Itália e Espanha. Embora redes sociais como QQ, Orkut e Live Spaces sejam tão grandes quanto, se não maiores, que o MySpace, elas recebem pouca cobertura nos EUA e na mídia de língua inglesa, tornando difícil acompanhar sua trajetória.

 

Comunidades de nincho em expansão

 

Ao lado destes serviços abertos, outros SNSs são lançados para apoiar nichos demográficos antes de expandir-se à um público mais vasto. Ao contrário dos SNSs, o Facebook foi concebido para apoiar somente redes destintas de faculdades. O Facebook começou no início de 2004 como SNS exclusiva de Havard (Cassidy, 2006). Para participar, o usuário deveria ter um endereço de email com o domínio havard.edu. À medida que o Facebook começou a aceitar usuários de outras universidades, esses usuários também eram obrigados a ter um endereço de e-mail com o domínio associado à sua instituição, requerimento que mateve o site relativamente fechado e contribuiu para que a percepção dos usuários fosse de um site íntimo, uma comunidade privada.

 

No início de setembro de 2005, o Facebook se expandiu para incluir estudantes do Ensino Médio, profissionais dentro das redes corporativas, e, finalmente, a todos. A mudança para o acesso livre não significou que os novos usuários poderiam facilmente acessar usuários em redes fechadas – ganhando acesso a redes corporativas que ainda exigiam endereços .com adequados, enquanto que para acessar as redes do ensino médio era exigida aprovação do administrador. (Até o momento da escrita desse texto, apenas membros das redes regionais não necessitam de permissão.) Ao contrário de outras SNSs, os usuários do Facebook não podem permitir que seus perfis sejam vistos por todos os usuários. Outra característica que diferencia o Facebook é a possibilidade de colaboradores externos  criarem "aplicativos" que permitem que usuários personalizem seus perfis e executem outras tarefas, como comparar preferências de filmes e publicar histórias de de viagens em mapas.

 

Enquanto a maioria dos sites de rede social foca em crescer ampla e exponencialmente, outros explicitamente buscam audiências menores. Alguns, como aSmallWorld e BeautifulPeople, intencionalmente restringem o acesso para parecer mais seletivos e elitistas. Outros - sites centrados em atividades como Couchsurfing (9), relacionados à identidade como BlackPlanet e focados em afiliação como MyChurch - são limitados pela demografia de seu target e portanto tendem a ser menores. Por fim, qualquer um que deseje criar uma rede social de nicho pode fazê-lo através do Ning, uma plataforma de serviço e hospedagem que encoraja usuários a criarem suas próprias redes sociais.

 

Atualmente, não há dados confiáveis sobre quantas pessoas usam redes sociais, embora pesquisas de marketing indiquem que sites de rede social estejam crescendo em popularidade mundialmente (comScore, 2007). Este crescimento levou muitas corporações a investir tempo e dinheiro em criar, comprar, promover e anunciar sites de rede social. Ao mesmo tempo, outras empresas estão bloqueando o acesso de seus funcionários a estes sites. Adicionalmente, o exército dos EUA proibiu seus soldados de acessarem o MySpace (Frosch, 2007) e o governo canadense proibiu funcionários de usarem o Facebook (Benzie, 2007), enquanto o Congresso norte-americano propôs uma legislação para banir o acesso de jovens aos sites de rede social de escolas e bibliotecas (H.R. 5319, 2006; S. 49, 2007).

 

A ascensão dos sites de rede social indica uma mudança na organização das comunidades online. Enquanto websites dedicados a comunidades de interesse ainda existam e prosperem, sites de rede social são primariamente organizados em torno de pessoas, não interesses. Comunidades online públicas pioneiras como Usenet e fóruns de discussão públicos foram estruturados por tópicos ou de acordo com uma hierarquia de tópicos, mas sites de rede social são estruturados como redes pessoais (ou "egocêntricas"), com o indivíduo no centro de sua própria comunidade. Isto reflete mais precisamente estruturas sociais não-mediadas, onde "o mundo é composto de redes, não de grupos" (Wellman, 1988, p.37). A introdução de recursos de redes sociais introduziu um novo suporte organizacional para comunidades online e, com isso, um vibrante novo contexto para pesquisas.

 

Notas:

 

1. a palavra original é "affondance" que, segundo o site Answers.com, quer dizer: "a property of an object that determines or indicates how that object can be used. Affordances may be actual physical properties, or perceived properties."

 

2. a palavra "scholarship" geralmente é traduzida como "bolsa de estudos", mas, neste caso, os autores usam com o sentido de "Knowledge resulting from study and research in a particular field", por isso, estou substituindo a palavra por "resultado de pesquisa"<estudos

 

3.o artigo é composto de três sub-temas: definição, história e produção acadêmica sobre sites de rede social. A proposta, neste caso, é traduzir as duas primeiras partes. O conteúdo final é menos interessante para quem está não está fazendo pesquisa acadêmica na área, ainda mais quando os estudos mencionados aconteceram ou estão acontecendo nos Estados Unidos.

 

4. "laço ou vinculo social" é o conceito de Haythornthwaite para "A conexão apresentada entre dois atores em uma rede social" (definição retirada do artigo de Raquel Recuero, Um estudo do Capital Social gerado a partir de Redes Sociais no Orkut e nos Weblogs, disponível em www.compos.org.br/data/biblioteca_772.pdf )

 

5. Para diferenciar a lista articulada de Amigos nos SNS do uso do termo coloquial "amigos", vamos marcar o primeiro com maiúscula. (Nota das autoras)

 

6. A citação original é "type oneself into being".

 

7. Do inglês, "venture-backed startups"

 

8. Até então o Friendster era um serviço pago.

 

9. "Couch surfing" quer dizer dormir em sofás ou camas sobressalentes quando se está viajando.

 

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