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Compartilhe seus arquivos, ou morra - por John Snyder e Ben Snyder (original / tradutores)

 

Um executivo da indústria fonográfica e seu filho defendem formalmente que músicas sejam baixadas grátis. O ponto central: 50 milhões de americanos não podem estar errados.

 

O seguinte texto foi escrito em resposta a uma discussão promovida pelo conselho de tutores da filial de Nova York da National Association of Recording Arts and Sciences (NARAS) sobre a posição que o NARAS deve tomar com relação a uma nova campanha de relações públicas proposta pela Recording Industry Association da América (RIAA) condenando aqueles que fazem download de música na Internet.

 

O tema de direitos digitais, bem como a posição NARAS deve ter com relação a ele, é um assunto do qual estou próximo e considero particularmente importante. Li muita coisa sobre ele. Se me permite, gostaria de oferecer algumas reflexões:

 

I. Propriedade intelectual

 

Deixando de lado o que achamos que deve ser feito, atualmente ainda é ilegal fazer download de músicas protegidas por copyright que você não tenha comprado. Esse é um problema que precisa ser atacado. A estatística discutida no encontro de dezembro, de que houve 3 bilhões de downloads no mês anterior mostra que a lei precisará ser mudada, a não ser que você tome a posição de que o download de música é um crime e a partir daí criminalizar a sociedade. Mas como 50 milhões de pessoas (mais de 200 milhões ao redor do mundo) podem estar erradas? Como reconciliamos a realidade do download de músicas com a ideia de propriedade intelectual?

 

A propriedade intelectual não foi sempre definida e protegida como é hoje. Thomas Jefferson escreveu sobre as considerações filosóficas:

 

"Se a natureza fez uma coisa menos suscetível do que outras à propriedade exclusiva, é a ação do poder do pensamento chamada de ideia, que um indivíduo pode possuir exclusivamente à medida que a mantém para si próprio; mas no momento em que é divulgada, a ideia se coloca como propriedade de todos, e o receptor não pode se desvencilhar dela. Seu caráter peculiar, também, é que ninguém a possui menos, porque todos possuem o todo da ideia. Aquele que recebe de mim uma ideia, recebe instrução ele mesmo sem que a minha sofra diminuição; assim como aquele que acende sua vela na minha recebe luz sem me deixar no escuro. Que as ideias deveriam se espalhar livremente de um a outro ao redor do globo, para a moral e para a instrução mútua do homem, e melhoria em sua condição, parece ter sido particularmente e benevolamente designado pela natureza, já que ela as fez, assim como o fogo, expansíveis através de todo o espaço, sem perder sua densidade em ponto algum, e como o ar em que respiramos, nos movemos e temos nossa existência física, incapaz de confinamento ou apropriação exclusiva. Invenções então não podem, na natureza, ser um sujeito de propriedade."

 

A citação acima apareceu no excelente ensaio de John Perry Barlow, "A Economia das Ideias", publicado pela primeira vez na edição de março de 1994 da revista Wired. Barlow escreve:

 

"Se nossa propriedade pode ser infinitamente reproduzida e instantaneamente distribuída por todo o planeta sem custo, sem nosso conhecimento, sem mesmo nunca ter escapado de nossas mãos, como podemos protegê-la? Como iremos ser pagos pelo trabalho que realizamos com nossas mentes? E, se não podemos ser pagos, o que vai garantir a continuidade da criação e distribuição de tal trabalho?

 

"Já que não temos uma solução para o que é um tipo profundamente novo de desafio, e aparentemente somos incapazes de adiar a digitalização galopante de tudo que não é obstinadamente físico, estamos navegando rumo ao futuro em um barco furado.

 

"Este barco, o acúmulo das leis de direitos autorais e de patentes, foi desenvolvido para conduzir métodos e formas de expressão completamente diferentes da carga vaporosa que agora está sendo convidado a carregar. Por isso está vazando tanto por dentro quanto por fora."

 

"Os esforços legais para manter este velho barco flutuando estão tomando três formas: um frenesi para rearranjar as espreguiçadeiras no convés, advertências aos passageiros, se o barco afundar eles irão enfrentar duras acusações criminais, e negativas serenas de olhos vidrados."

 

"O Direito da propriedade intelectual não pode ser remendado, remontado, ou ampliado para conter expressões digitalizadas mais do que qualquer outra lei de bem imóvel deve ser revisada para cobrir a atribuição do espectro de radiodifusão..."

 

Todo o conceito de propriedade intelectual precisa ser reexaminado, e maneiras de protegê-la precisam ser reconsideradas. Infelizmente, a industria do entretenimento, por catimba dos legisladores e com mãozinha dos juízes conseguiu uma extensão do copyright de mais 20 anos. A Corte Suprema dos Estados Unidos recentemente sustentou o "Sonny Bono Copyright Term Extension Act (CTEA)" (Sonny Bono, do grupo vocal Sonny&Cher dos anos 60, como deputado apresentou o projeto da extensão de mais 20 anos para o direito autoral nos USA) Isto aconteceu mesmo com o procurador Steven G. Breyer tendo estimado que apenas 2% dos trabalhos protegidos por copyright entre 1923 e 1942 estão disponiveis para o acesso público em geral. Este caso na Corte Suprema sacrificou o público em favor da Disney, que teria os primeiros desenhos do Mickey entrando em domínio público em 2003 e em favor de quem o Congresso havia proposto a legislação em primeiro lugar.

 

Este é um caso onde claramente uma multinacional usa seus músculos politicos para se locupletar, prejudicando a todos. Desta forma, o negócio do entretenimento, em vez de criar novo conteúdo e permitir que leis bem estabelecidas vigorem, prefere desajeitadamente manipular o processo em seu favor, usando a subserviência de políticos depauperados e a esforçada concordância da Corte Suprema. Isto é o melhor que o esquema das coisas têm a oferecer e não têm nada a ver com progresso ou o bem da sociedade.

 

II. Competição para o CD

 

A discussão atual sobre propriedade intelectual é o resultado do compartilhamento de arquivos musicais formatados como .MP3, .wma, .rma ou outros formatos disponíveis hoje em dia. A indústria fonográfica culpa estes arquivos descarregados pela internet, que ela entende serem piratas, pelo declínio de 10% das vendas do ano de 2002 (e mais 60% até 2009?). Isto levanta várias questões, entre elas: Como e por que as pessoas escutam música? Que outros produtos competem com os CDs? Qual o papel do rádio?

 

Como é que pode, as gravadoras pagam generosamente para tocar no rádio, mas combatem a audição pela Internet? Qual é realmente a diferença entre rádio e Internet? Cópias perfeitas? Se olharmos para a Internet como análoga ao rádio, o problema passa a ser de "Direitos de Execução", e não a exploração ilegal de propriedade intelectual. As pessoas estão criando suas próprias "rádios" nos seus discos rígidos, e mudam isto frequentemente. Será que isto tem a ver com uma "McDonaldização" do rádio feita pela Clear Channel e outras grandes redes (Jovem Pan, Transamérica)? Será que o fato que quase todas as músicas tocadas na rádio são compradas e pagas tem alguma coisa a ver com o foco estreito e a natureza homogênea do rádio atual? O que move o rádio é propaganda e dinheiro, não mais a música. Muita música fica para trás por causa desse rádio de hoje; a rejeição dos consumidores não devia ser surpresa. Eles organizam suas listas de músicas para tocar em MP3 e, se as gravadoras fossem espertas, fariam de tudo para estar presentes nestas listas, da mesma forma que faziam de tudo para entrar nas paradas de sucesso das rádios. Em vez disto, preferem pedir falta, gritam que é infração do copyright e chamam seus advogados.

 

Há outras razões que explicam a queda nas vendas de CDs.

 

Dan Bricklin e pesquisas da Forrester Research listam razões para essa queda:

 

"... a economia, a competição de outras formas de entretenimento (incluindo os 6 bilhões de dólares anuais dos video games e a corrida ao novo formato de video DVD), e finalmente as "playlists" mais curtas no rádio (parcialmente como resultado do controle do Clear Channel de 60 por cento dos ouvintes das rádio-rock e seu estilo) que faz com que cada vez menos novos músicos sejam bem conhecidos...a MTV está tocando menos vídeos de música, e em geral, há o estilo da indústria fonográfica que empurra uma gama menor de músicos. Você pode considerar que a morte da rádio na Internet também diminuirá as possibilidades de novas músicas serem encontradas.

 

A razão mais forte para o declínio nas vendas de CDs é o preço. No website da Bricklin há um gráfico que mostra que entre 1991 e 2001, o preço médio de um CD foi de US$ 13,01 para US$ 14,64, o que significa um aumento de 12,33% no preço. As indústrias fonográficas aumentaram os preços bem quando os custos estavam diminuindo. No momento em que um DVD custa US$ 19,99, inclui um video em múltiplos formatos e material extra sem complicações e que um CD custa US$ 18,99 e vem com um potencial de complicações legais/jurídicas, limites para a utilização equitável e todas as proibições de que a RIAA pode se valer, a escolha de qual produto comprar se torna clara. Simples e resumidamente, os consumidores acham que dentre todas as opções de entretenimento que possuem, os CDs são os que menos oferecem pelo dinheiro a ser gasto.

 

Há cinco ou seis maneiras novas e crescentes para as pessoas gastarem o dinheiro de entretenimento. O mercado do video game é para onde a maioria das pessoas foi, e a música acompanhou a tendência/seguiu o exemplo. O VH1 News comunicou recentemente que os jogos são o novo lugar para se lançar um artista. Algumas companhias, como a Island Records, sabem disso. Ela tem um histórico fantástico de músicas colocadas em bandas sonoras de video games. Mas, contrariamente à Island, muitas companhias não o fazem. Há outras distrações que tiram os negócios das gravadoras de discos: o DVD, o segmento de produtos eletrônicos de consumo cujo desenvolvimento mais rapidamente cresceu na história do mundo, a própria Internet, o email, a televisão a cabo, filmes e mesmo o telefone celular. Além disso, o produto divulgado pelos selos das gravadoras é bastante restrito e superfaturado se compararmos às outras opções de entretenimento existentes. Os tocadores de CD portáteis estão sendo substituídos por iPods. Ao invés de 12 músicas em um CD, temos 1500 músicas em um iPod. Por que as vendas de CDs não deveriam estar em baixa? Verdade seja dita, o negócio das gravadoras tem sorte de estar ainda vivo.

 

O site Ananova.com relatou que, no ano passado, foram vendidos 3,8 milhões de DVD players - o dobro da quantidade comercializada nos 12 meses anteriores. As vendas de DVDs alcançaram 80 milhões de unidades no último ano, o que representa um crescimento de 111% em relação a 2001. Só em dezembro de 2002, foram vendidos 20 milhões de DVDs e 1,2 milhão de DVD players. A indústria cinematográfica comercializou 1,6 bilhão de ingressos, faturando US$ 9,3 bilhões em 2002, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior, apesar da recente declaração do presidente e CEO da MPQQ, Jack Valentin, de que as espectativas para o futuro são desoladoras. Desde os anos 1950, nunca foram vendidos tantos ingressos de cinema, ainda que o compartilhamento de filmes na Internet esteja mais alto do que nunca. Ou seja, o negócio do cinema não está sofrendo por causa do compartilhamento de filmes na Internet. Aliás, acontece quase o oposto - a indústria está ganhando mais do que faturava antes! Tudo isso, em um momento em que os consumidores têm mais opções de filmes à sua disposição, o que dá base à ideia de que as pessoas gastam mais dinheiro quando têm mais possibilidades de escolha.

 

Os avanços em hardware e software têm impulsionado os negócios de filmes desde o VCR, que na época foi decretado como a sua morte , assim como a cassete era para ser a morte dos negócios da música. Em ambos os casos, esses dispositivos de "cópia" melhoraram seus respectivos negócios. Quer se trate da MPAA ou RIAA, não há qualquer razão para confiar em quem tem chorado lágrimas de crocodilo no passado sobre as novas tecnologias, especialmente quando a história já demonstrou que os avanços tecnológicos aumentaram o consumo.

 

Depois, há a realidade de que a Internet está mudando muitas empresas. eBay, o mais rápido crescimento e mais rentável empreendimento da Internet está vendendo tudo no ramo de entretenimento (e todo o resto) para dezenas de milhões de pessoas toda semana, incluindo música e instrumentos musicais. Resultado, eles levaram muitas lojas de músicas e de instrumentos musicais à falência. Em uma época de rápida evolução tecnológica, as empresas que se adaptarem irão sobreviver, quem não, não. Conforme relatado pelo New York Times em janeiro 17, 2003:

 

"eBay relatou um lucro de US$ 87 milhões para o quarto trimestre, mais do que triplicou os US$ 25,9 milhões do ano anterior ... Os rendimentos foram de US$ 413,9 milhões num trimestre, superando o ano anterior em 89% ... Durante o ano inteiro, eBay ganhou US$ 249,9 milhões, acima dos US$ 90,4 milhões de um ano atrás. As vendas aumentaram 62%, cerca de US$ 1,21 bilhões ... No ano passado, um total de US$ 14,9 bilhões no valor da mercadoria foi vendida no eBay. Este dado é apenas tímido tendo em vista os US$ 15,5 bilhões em vendas que os analistas esperam para este ano da Federated Department Stores, o pai da Macy's*."

 

* A Macy's Inc. era conhecida como Federated Department Stores, Inc.

 

Estes números são surpreendentes, e que nos revela a trilha do futuro. De acordo com o Times, as vendas aumentaram em 28% na Amazônia, US$ 1,43 bilhões, e esta é a face de um dos mais difíceis mercados retalhistas em anos. Eles conseguiram isso mediante a expansão das suas linhas de produção (que incluem vestuário) e por oferecem envio gratuito para os consumidores cujas encomendas ultrapassem US$ 25, proporcionando um melhor serviço por menos dinheiro. Talvez a indústria fonográfica tome nota.

 

É verdade que baixar música é um entretenimento bem popular para muitas pessoas. O programa de peer-to-peer (p2p, ou pessoa a pessoa) número um, KaZaA foi baixado 3,145,095 vezes durante a semana de 6 a 12 de janeiro de 2003. O programa de p2p número 2, iMesh, foi baixado 440,877 vezes no mesmo período. KaZaA estimou que tinha 140 milhões de usuários no fim de 2002, duas vezes mais que o Napster no seu pico. Estes números fantásticos indicam o desejo entre os consumidores por música que as companhias de música tradicionalmente satisfaziam, mas que cada vez mais não satisfazem. Isso faz surgir uma outra questão. Por que as gravadoras não tem redes p2p? Essas redes provaram ser muito populares. Não requerem altos investimentos em tecnologia tanto inicialmente como para a manutenção e, mais importante, a comunidade online as abraçou de todo o coração. A razão é que eles não podem chegar a um acordo com seus "parceiros" - editores e artistas - em como dividir o dinheiro. A mesma avidez que os pôs no atual problema impede que eles se livrem dele.

 

Vamos supor que eu seja um garoto. Tenho uma mesada fixa ou um pequeno salário. Tenho US$100 por mês para gastar em entretenimento, se tiver sorte. Com essa grana, posso alugar ou comprar DVDs, pagar pela minha conexão de Internet, ir a um show, ao cinema ou a um evento esportivo (onde eu provavelmente compraria algum produto do time), comprar um vídeo game, pagar minha conta de celular, passar no drive thru, ou comprar um CD. Dessa lista de opções, qual a última coisa com a qual eu gastaria meu dinheiro? Acho que a resposta seria com o CD, mesmo se a opção de baixar músicas não existisse. Meu argumento é de que não foi a presença de uma alternativa gratuita que provocou o declínio na venda de CDs, mas a presença de opções mais competitivas que oferecem mais valor e menos aborrecimentos.

 

III. Um argumento para o download de músicas

 

Pode-se argumentar que MP3s são os melhores instrumentos de marketing de todos os tempos para a indústria da música. Se a sua música não está sendo baixada, voce está ferrado. Se você não consegue passá-la adiante, você certamente não conseguirá vendê-la. Daniel Bedingfield recentemente teve sua canção no top 3 das rádios, com "Gotta Get Through This.", No entanto, sua música não era disponível através de nenhuma uma das redes P2P. Seu recorde durou na 'Billboard Top 200' menos de um mês, embora esse single tenha rodado nas playlists das rádios de todo o país durante vários meses. Também foi amplamente divulgado que o álbum mais baixado de todos os tempos foi "The Eminem Show", de Eminem. Teve tantos downloads que a Interscope teve de tomar uma decisão incomum e liberar o álbum antecipadamente por uma semana, devido ao galopante compartilhamento online de faixas do álbum. Passando rapidamente pra frente até o final de 2002, e "The Eminem Show" é o álbum mais vendido do ano. Isto parece indicar o contrário do que a RIAA nos querem fazer crer. Quando as pessoas compartilham MP3s, mais música é vendida, e não menos.

 

Como o VH1.com recentemente noticiou, ao menos uma companhia acredita que o compartilhamento de arquivos é bom para os negócios e que ainda é uma "ferramenta promocional que impulsiona a venda de álbuns que assim merecem". A M.S.C. Music & Entertainment está encorajando seus ouvintes a baixar de graça 20 faixas do novo álbum do rapper Tech N9ne. "Os grandes selos não podem mais enganar o consumidor. Eles não querem que você experimente a música deles porque eles sabem que se os fãs se derem conta que só existem duas músicas boas em um disco, você não o vai comprar.... Nós confiamos em nosso produto."

 

50 Cent, o mais novo talento descoberto por Eminem e o rei das ruas do rap atual, vê uma vantagem em ver seu album de estreia, "Get Rich or Die Trying" disponibilizado antes da data de lançamento:

 

"Os pirateadores irão a loucura com esse disco. Eles entenderam quanta presença eu tenho nas ruas. Eles provavelmente pegarão o disco duas semanas antes do álbum ser lançado e ele estará por todo lugar.... Eu acredito que o boca-a-boca acabará por gerar mais vendas. Consistência é a chave para todo sucesso. Se eu lançar músicas boas de maneira consistente, se eles comprarem o disco pirata, isto irá garantir que eles comprem o CD oficial quando meu novo álbum for lançado. Eu estou tranquilo finaceiramente então não vou me preocupar com os poucos dólares que os pirateadores farão.

 

Existe uma parte provocativa no p2p.com a respeito de pirataria e distribuição online intitulada "Pirataria é Taxação Progressiva, e Outros Pensamentos sobre a Evolução da Distribuição Online", por Tim O'Reilly. Seu artigo discute numerosos assuntos, incluindo: A Obscuridade é de longe uma ameaça maior para autores e artistas criativos que a pirataria. Pirataria é taxação progressiva. Clientes querem fazer a coisa certa, se puderem. Roubos em lojas são uma ameaça maior que a pirataria. Redes de compartilhamento de arquivos não ameaçam a publicação de livros, músicas ou filmes, elas ameaçam os publicadores existentes. "Grátis" é eventualmente substituído por serviço pago de maior qualidade.

 

Tim O'Reilly é fundador e presidente da O'Reilly & Associados, considerado por muitos o melhor editor de livros de informática do mundo. Ele é um pioneiro na popularização da Internet. Seu site Global Network Navigator (GNN, vendido para a AOL em setembro de 1995) foi o primeiro portal da rede e o primeiro site verdadeiramente comercial na World Wide Web. O'Reilly tem uma visão de longo prazo do problema da propriedade intelectual, em oposição à visão de curto prazo que se caracteriza pela retórica do "céu desabando" da indústria da música (RIAA) e de cinema (MPAA).

 

As observações de O'Reilly sobre a indústria de livro se aplicam à indústria musical. Como com a indústria das gravadoras, o mundo das editoras goza de apenas 10% de taxa de sucesso. "Mais de 1.000.000 livros são publicados todo ano... no entanto menos de 10.000 desses novos livros têm alguma venda significante." E como os músicos e a indústria musical, "Os autores pensam que conseguir um editor será a realização de seus sonhos, mas para muitos, é o começo de um longo desapontamento."

 

O'Reilly continua:

 

"Para todos esses artistas criativos, a maioria trabalhando na obscuridade, sendo conhecidos o bastante por serem pirateados seria um feito e tanto. A pirataria é uma forma de taxação progressiva, que talvez retire umas poucas porcentagens das vendas de artistas conhecidos (e eu disso "talvez" porque mesmo esse ponto não está provado), em troca de benefícios massivos.

 

"Eu tenho observado minha filha de 19 anos e seus amigos experimentarem bandas incontáveis no Napster e Kazaa e, entusiasmadas com suas músicas, irem comprar CDs. Minha filha hoje tem mais CDs do que eu colecionei em toda uma vida de audição menos exploratória. Além disso, ela me apresentou a suas músicas favoritas, e eu também comprei CDs como resultado disso. E não, ela não está baixando Britney Spears, mas bandas esquecidas dos anos 60, 70, 80 e 90, assim como seus antecedentes musicais de outros gêneros. Isso é música difícil de achar - exceto online - mas, uma vez encontrada, leva a uma busca focada por CDs, discos, e outros artefatos. eBay está fazendo um belo negócio com muito desse material, mesmo se a RIAA falha em enxergar essa oportunidade.

 

O'Reilly Faz outras observações convincentes:

 

"Pirataria é uma palavra carregada, que nós usamos para cópias no atacado e revenda de produto ilegal. O uso que faz a indústria de música e filmes, aplicando o termo ao compartilhamento p2p, é um desserviço à discussão honesta..."

 

"O modo mais simples de fazer com que clientes parem de consumir cópias digitais ilícitas de músicas e filmes é dar a esses clientes uma alternativa legítima, a um preço justo..."

 

"A questão que se nos coloca não é se tecnologias como compartilhamento "peer-to-peer" irão minar o papel do artista criativo ou do editor, mas como artistas criativos podem usar novas tecnologias para aumentar a visibilidade de seus trabalhos. Para editores, a questão é se eles compreenderão como fazer seus papéis na nova mídia antes que outros o façam. O negócio da edição é um nicho ecológico; novos editores irão correr para preenchê-lo se os velhos falharem em fazê-lo..."

 

"As novas mídias têm, historicamente, não substituindo, mas adicionando e expandindo o mercado de mídias existentes, pelo menos a curto prazo. Há oportunidades para co-existirem as novas distribuições de mídia e as velhas."

 

O'Reily compara o serviço de assinatura online de músicas às pessoas que pagam US$ 19,95 por mês por um ISP quando tem disponível Internet "de graça", ou US$ 20 ou US$ 60 por mês pela programação da TV quando há a programação "de graça":

 

"Por que você pagaria por uma música que poderia conseguir de graça? Pela mesma razão pela qual você compra um livro que poderia ser emprestado da biblioteca pública ou compra um DVD de um filme que poderia assistir pela televisão ou alugar no final de semana. Conveniência, fácil de usar, seleção, habilidade para encontrar o que você quer, e para os entusiastas, o prazer inigualável de possuir algo que considera precioso."

 

Comparando TV X música, O'Reilly fala que se tem uma lição que pode ser aprendida pela televisão "é que as pessoas optam por assinaturas de pay-per-view¹ somente em casos muito especiais. Além do mais, eles preferem as assinaturas de grandes coleções de conteúdo, do que um único canal. Assim, as pessoas normalmente assinam 'pacote de filmes', 'pacote de esportes' e assim por diante. A gravação da indústria 'por música', para ver a reação da audiência², pode funcionar, mas eu prevejo que, a longo prazo, um 'tudo-que-você-deseja' como assinatura mensal do serviço (talvez segmentado por gênero musical) prevalecerá no mercado."

 

1- http://pt.wikipedia.org/wiki/Pay-per-view

2- http://en.wikipedia.org/wiki/Trial_balloon

 

As pessoas querem o que querem e têm de fazer escolhas. Eles ainda comprarão CDs, mas querem baixar músicas. A falha do mercado da música em disponibilizar uma alternativa comparável às redes p2p é a explicação mais lógica para os downloads "ilegais" de música. E ao invés de endereçar o problema examinando seu próprio comportamento, as companhias fonográficas declaram o consumidor como seu inimigo, o intruso, acima da lei, e que agem precisamente contra seus maiores interesses. Isso permanece como verdade mesmo com o recente acordo da RIAA com vários grupos de tecnologia. Ao invés de tomar consciência do potencial financeiro do qual eles reclamam, tentam matar, e então tentam controlar. Agora, eles tentam controlar o consumidor. Como O'Reilly afirma em seu parágrafo final:

 

"E essa é a última lição . De ao fã o que ele quer!, como o memorável Han Solo no primeiro filme da série Star Wars. Dê isso a ele de todas as maneiras que você possa conseguir, a um bom preço, e deixe que ele escolha o que funciona melhor para ele.

 

A RIAA tenta "dar ao fã o que ele quer" por estar dando o que eles querem. O último lançamento deles e um pacote de músicas e serviços de assinatura. O New York Times reportou que a "Jupiter Research esperava que os usuários pagassem US$ 79 milhões por download de músicas e CDs em 2003. Serviços de assinatura ...esperam arrecadar em torno de US$ 107 milhões no próximo ano." O Times continua:

 

A nova batalha sobre esses serviços será sobre como eles escolhem as músicas que vão em determinado pacote, que tipo de acesso exclusivo poderão oferecer a assinantes de um determidado artista e se eles poderão ser usados em aparelhos portáteis, aparelhos de som e em carros."

 

Se os serviços de assinatura oferecerem várias opções de música, nenhum sistema de direitos digitais, arquivos de alta qualidade devidamente identificados por um preço razoável e com downloads rápidos, terão uma chance de concorrer contra os "gratuitos". Infelizmente, é pouco provável que a indústria fonográfica consiga evitar questões referentes à proteção contra cópias. Pelo contrário, a proteção contra cópias continua sendo a prioridade número 1, tanto para a indústria fonográfica quanto a cinematográfica. O futuro da mídia digital será uma oferta variada de filmes e músicas com várias formas de distribuição e preços variados. Se você quiser ouvir apenas uma vez, ou durante um período de 24 horas, será mais barato do que se você quiser baixar e gravar no seu HD. Se você quiser uma música para poder ouvir em qualquer um dos seus aparelhos de som, computadores, iPods, etc., ela custará mais do que se você quiser apenas ouvi-la ou assisti-la pela Internet. O ano de 2003 será crucial para os serviços de assinatura da indústria fonográfica online como o PressPlay (Universal/Sony), MusicNet (BMG/Warners/EMI), and Rhapsody. Eles terão que desenvolver uma abordagem específica para essas questões de forma a atender a demanda atualmente encontrada nas redes p2p, caso eles queiram competir nesse mercado emergente. Os consumidores são resistentes a aceitar limitações de uso, por isso é pouco provável que a proteção contra cópias seja a cura daquilo que tanto aflige a indústria da música.

 

O mercado da música não é como o mercado dos filmes, apesar de ambos estarem envolvidos na disseminação digital de propriedade intelectual. Uma música não é como um filme. Escutar uma música na Internet não é como assistir um filme de graça na Internet. Um dos argumentos é que fazer download músicas funciona como uma substituição das rádios, o primeiro passo no processo de consumo, enquanto que você assistir a um filme é sugerir, que é o último passo no processo de consumo. Os consumidores podem aceitar limitações no uso de um filme, fazendo isso mais similarmente às licenças de software, mas eles acham mais difícil aceitar essas limitações no uso de um CD que eles comprarem ou músicas que eles adquirirem por meio de serviços de assinatura. Os consumidores estão acostumados a alugar filmes; eles estão acostumados a comprar sua própria música.

 

As empresas fonográficas são mais eficientes em seu abuso contra os consumidores do que as empresas de filmes. Os consumidores não odeiam as empresas cinematográficas, mas odeiam as gravadoras. A questão é: por que isso está acontecendo e o que vai ser feito a respeito? A proteção contra cópias digitais (conhecida como "digital rights management" ou DRM) só vai colocar mais lenha na fogueira, então esperem por um grande incêndio em 2003. No fim de tudo, são as empresas fonográficas que estão se arriscando a se queimar. A indústria fonográfica tem a oportunidade de se ajustar à nova realidade da distribuição digital, mas, ao invés disso, ela se agarra aos seus atuais modelos de negócios, onde controla os canais de distribuição o máximo que pode. É de se duvidar que esse tipo de comportamento seja recompensado com o aumento das vendas.

 

A Lei dos Direitos Autorais do Milênio Digital (Digital Millennium Copyright Act - DMCA) foi aprovada no Congresso em 1998 para definir como a inovação tecnológica afetaria a propriedade intelectual. Durante a definição do documento, o Congresso observou a RIAA e grupos similares como guia para o que a lei deveria conter. A Fundação Fronteira Eletrônica (Eletronic Frontier Foundation - EFF) recentemente publicou um estudo entitulado Consequências Não Intencionais: Quatro anos sob a DMCA o qual entra em detalhes sobre como a cláusula "anti-fraude" da DMCA tem sido utilizada para reprimir a inovação, censurar a liberdade de expressão e pôr em risco a pesquisa acadêmica/científica. Esses efeitos calmos das contradições da DMCA e o limite da doutrina de "uso justo" é uma parte importante das leis de direitos autorais. Além disso, a responsabilidade pelos direitos digitais (digital rights management - DRM) afirma que a proposta da RIAA e da MPAA para proteger seus direitos não fazem nada para proteger o "uso justo" dos direitos dos consumidores.

 

As gravadoras agem de forma confusa e contraditória. Elas utilizam o MP3 internamente enquanto o ridiculariza em público. Quando estão promovendo uma nova banda, elas colocam as músicas dessa banda em redes p2p (geralmente de uma forma disfarçada), esperando que elas sejam compartilhadas e comentadas em salas de bate-papo. E quando se trata de uma banda já estabelecida com um histórico de vendas, elas enganam as redes p2p com arquivos falsos (também de uma forma disfarçada). É apenas outra forma de usar MP3s, uma forma distorcida e contra o consumidor. A RIAA está aparentemente engajada em “envenenar” as redes p2p.

 

O maior dano que o download de músicas causou foi a paralisia que infligiu aos reacionários da indústria fonográfica. Não se espera que o caminho para o lucro incluia uma batalha judiciária longa e cansativa com os consumidores, apesar de ser exatamente isso que a RIAA está fazendo. As opções da NARAS são liderar a luta por aquilo que é melhor para os artistas ou endossar as posições auto-centradas do grupo de lobby da indústria fonográfica no congresso, o RIAA.

 

Existe um artigo bem convicente de Damien Cave no Salon.com intitulado "File Sharing: Innocent Until Proven Guilty" que argumenta que não existe nenhuma prova da correlação entre os downloads de música e o declínio de vendas de CDs. Ele continua argumentando em "File Sharing: Guilty As Charged?" que o bom negócio do discurso “o céu está desabando”, criado pelas gravadoras e a RIAA, é baseado em suposições e interesses próprios. Além disso, o artigo "RIAA's Statistics Don't Add Up to Piracy" analisa as estatísticas da própria RIAA e argumenta que elas não oferecem nenhuma base para a conclusão da própria RIAA de que o download de músicas é a causa do declínio de vendas de CDs. Nessa análise detalhada, George Ziemann argumenta que as gravadoras lançaram 11.900 títulos a menos em 2000 do que os lançados em 1999, uma queda de 25%, apesar do número de unidades vendidas ter caído em apenas 10,3% e o valor em dólar dessas unidades tenha diminuído em apenas 4,1%. Parece que a RIAA está interpretando de forma equivocada as suas próprias estatísticas.

 

IV. A Participação da gravadoras

 

Poderia ser dito que as gravadores são responsáveis por seu atual dilema. Outra vez, como eles puderam colocar-se dentro de uma das maiores encrencas do setor corporativo, e o que eles vão fazer a respeito disso? A cinco anos atrás ninguém deu um segundo para pensar nas gravadoras; agora eles estão negativos. As gravadoras precisam entender que música, agora, é vista como um produto supérfluo com vida própria de noventa dias, e isso é o que eles deveriam fazer. É como Prince disse recentemente:

 

"Então há mais cidadãos realmente sendo desrespeitosos ao valor da arte e precisam providenciar compensações apropriadas aos artistas por seus trabalhos? Dissemos anteriormente e diremos de novo: o surgimento da tecnologia digital e da distribuição p2p tem menos a ver com o respeito intrínsico das pessoas pela arte e artistas e tudo a ver com a atitude cínica dos grandes conglomerados, que constantemente nos empurram mais e mais comerciais, altamente rentáveis produtos pelo preço de arte autêntica e respeito pelos artistas"

 

"Se as pessoas não se sentem suficientemente culpadas para serem impedidas de fazer cópias digitais do último episódio de um popular programa de TV ou de uma música pop de sucesso, é precisamente porque os gigantes da indústria conseguiram transformar estes trabalhos em produtos puramente comerciais, com pouca ou nenhuma consideração ao seu real valor artístico. É precisamente porque estas companhias promovem produtos comerciais às custas do trabalho artistico.

 

"O fato de que os atuais trabalhos de arte ainda conseguem escapar pelas frestas dessa enorme indústria dirigida pelo lucro não muda nada sobre as equações fundamentais que vêm dirigindo e ainda dirige a indústria, hoje mais do que nunca -- i. e. que arte é igual a dinheiro, que artistas são iguais a fontes de renda, e amantes da arte são iguais a consumidores."

 

"Como um simples exemplo de como a música é pouco valorizada como forma de arte pela indústria, estima-se que apenas cerca de 20% de toda música já gravada está atualmente disponível -- e desses 20%, qual proporção está de fato prontamente disponível para amantes da música? Qual proporção não é o atual "100 top álbums" das tabelas do SoundScan?"

 

"Simplesmente parece que a reação instintiva do amante da arte (seja ela música, programas de televisão, filmes ou outras formas de arte) é tal que, se a indústria não tem respeito por sua identidade como apreciador ou apreciadora de arte, então ele ou ela não tem motivo para ter qualquer respeito pela indústria como provedora de arte. Ao fazer cópias digitais dos chamados produtos digitais, muitas pessoas não estão demonstrando sua falta de respeito para a arte e para os artistas, mas sim expressando - conscientemente ou não - sua frustração com a forma que a indústria do entretenimento lucra por meio da arte, às custas tanto de criadores de arte quando amantes de arte.

 

"Os consumidores dos produtos comerciais da indústria do entretenimento são apenas tão cínicos quanto a indústria vem deliberadamente se fazendo, simplificando(*) seus produtos, usando os artistas para fins lucrativos, fazendo decisões e escolhas guiadas, apresentando seu próprio tipo com obscenas remunerações e impunidades legais que são completamete absurdas para com o mundo real das pessoas comuns."

 

(*)http://en.wiktionary.org/wiki/dumbed-down

 

Existe uma boa razão para o cinismo dos consumidores. A AOL Time Warner é dona da Warner Bros. Records (além da America Online, Time, Life, Fortune, Elektra, Sports Illustrated, HBO, Turner Broadcasting, CNN, Cinemax, Entertainment Weekly, New Line Cinema, Warner Bros. Studios, In Style, Warner/Chappell Music, Time Warner Cable, WBN, ICQ, Warner Music Group, Netscape, People, Reprise, Rhino, Atlantic, WEA, TNT, MapQuest, WinAmp, In Demand, Erato, Moviefone, and Road Runner). A AOL também ganha muito dinheiro como provedor de Internet. Não há a menor dúvida de que muita gente que usa os serviços da AOL estão baixando exatamente a mesma música que a Warner Bros. Records reclama que está sendo roubada. E não há a menor dúvida que os executivos da AOL Time Warner sabem disso. Além disso, não vamos nos esquecer que foi a AOL que comprou a Time Warner. O serviço triunfando sobre o conteúdo.

 

Os conglomerados estão patinando no impacto que a Internet e os downloads estão causando na forma de pensar dos consumidores. Mas não são os downloads que estão enlouquecendo o mercado fonográfico, e sim a incapacidade das empresas em se adaptar à Internet e às novas maneiras por meio das quais os consumidores querem comprar música. A AOL Time Warner acabou de informar uma perda de US$ 98,7 bilhões em 2002. A Sony, única empresa que tem interesse tanto no mercado fonográfico quanto no de equipamentos eletrônicos, perdeu sua liderança no mercado de portáteis para o iPod da Apple em função do seu conflito de interesses em direitos autorais musicais (Sony Music) e em hardware. Os equipamentos eletrônicos da Sony possuem proteção contra cópias, o que os torna inconvenientes e inflexíveis. Por exemplo, conforme artigo da revista Wired, "The Year the Music Dies," as 5 maiores empresas fonográficas venderam US$ 20 bilhões no ano passado, mas a Sony sozinha vendeu US$ 42 bilhões em eletrônicos e computadores, fazendo com que a música tenha um peso menor em seus negócios. "Se a Sony quer vender celulares com MP3 - um grande mercado no Japão com potencial para o mundo inteiro - quem vai prestar atenção às reclamações da Sony Music?

 

Em outro artigo recente na revista Wired, Frank Rose escreve:

 

"Como um membro da Associação Consumidora de Eletrônicos, a Sony se uniu ao coro de apoio à Napster contra o assédio judicial da Sony e de outras gigantes da música que queriam fechá-la. Como membro da RIAA, a Sony pressionou companhias como a Sony que manufaturam gravadores de CD. E não é somente por meio de associações de comércio que a Sony está demonstrando sua esquizofrenia. A Sony lançou um CD da Celine Dion com um mecanismo de proteção de cópia que fez com que ele não funcionasse em computadores da Sony. A Sony até mesmo se uniu ao processo da indústria musical contra o Launch Media, um serviço de rádio pela Internet que era em parte propriedade da - isso mesmo - Sony. Duas outras marcas já resolveram suas diferenças com Launch, mas Sony Music continua o litígio, mesmo que a Sony Electronics tenha sido uma das maiores divulgadoras do Launch e ele seja agora parte da Yahoo!, com quem a Sony formou uma grande parceria online. É como se hardware e entretenimento tivessem amarrado duas pernas juntas e disparassem numa corrida de três pernas, impetuosa e atabalhoadamente para o futuro."

 

A Sony é também o maior fabricante de gravadores de CD. Foi a empresa, em conjunto com a Phiilips, que desenvolveu o CD e, por isso, coleta royalties de várias patentes relacionadas a essa mídia. Todos os CDs, sejam usados para cópias comerciais ou comprados pelo público em geral, estão sujeitos a esses royalties, o que atualmente significa US$ 0,033 por disco. Para se ter uma ideia, no ano passado, foram vendidos mais de 500 milhões de CDs virgens. A vantagem de ser uma multinacional é a habilidade de usar um ativo para criar outro ativo. Ainda que a Sony fature menos com a música, ela está usando a reprodução de CDs para faturar mais.

 

Conflitos internos semelhantes existem dentro da AOL Time Warner, Vivendi Universal e da Bertelsmann. No entanto, elas continuam a atacar as empresas que violam os seus próprios direitos autorais. Elas estão tentando tê-los em ambos os sentidos, em todos os sentidos. Em vez de lidar com as suas próprias contradições, elas direcionam e financiam a RIAA para influenciar políticos a apoiarem leis como a "Peer to Peer Piracy Protection Act." ( Ato de Proteção à Pirataria p2p ). Este ato possibilita às empresas discográficas o direito de invadir o seu disco rígido (uma outra atividade ilegal) se eles suspeitarem que você tem obtido ilegalmente os seus direitos autorais, suas músicas. Esta lei anti-pirataria é na realidade uma lei anti-privacidade, e também limita o uso justo e ameaça a liberdade acadêmica. A RIAA e os negócios da música estão tentando legislar rentabilidade. A NARAS precisa tomar uma posição com relação ao problema dos direitos autorais, mas deve ser uma posição independente. A RIAA está agindo irracionalmente.

 

Além disso, as empresas discográficas estabeleceram recentemente uma ação de fixação de preços em que elas admitem um aumento de preços aos consumidores. Este ponto parece ser negligenciado pela RIAA, na sua tentativa de colocar todas as culpas pelas desgraças dos negócios da música no compartilhamento de arquivos. É possível que a dminuição das vendas de CDs esteja relacionada à conspiração das grandes gravadoras em fixar preços inflacionados?

 

V. Oportunidades e Futuro

 

Só mais um comentário sobre 3 bilhões de músicas baixadas todo mês: é música pra caramba. Não existem 3 bilhões de músicas. A música se tornou descartável. As pessoas estão consumindo isso mais rápido do que papel higiênico. Nunca na história do mundo existiu tanta música disponível e nunca houve tanta gente ouvindo música. Desse incrível desejo e necessidade de consumir música deve sair algo de bom. Eu acredito que músicos e compositores têm mais oportunidade do que nunca, e as gravadoras também. Eles só têm que inventar novas formas de lidar com essa oportunidade, e não será através de velhas regras. Janis Ian é um bom exemplo. O download de música foi responsável pela ressurreição da sua carreira. Ela está ganhando dinheiro por causa dos downloads. Eu acho que se não fosse por toda essa atividade na Internet e todos esses downloads, o mercado de CD estaria sofrendo ainda mais. O MP3 está diminuindo o declínio do mercado fonográfico, e não criando esse declínio.

 

As companhias discográficas não são entidades lógicas, íntegras. São empresas decrépitas, com fins lucrativos. Atuam observando seus melhores interesses , de forma cruel e, em muitos casos, irracionalmente. As pessoas que executá-las ainda têm o seu email impresso, por suas secretárias. Teremos de esperar a próxima geração assumir, a geração do "software" , a geração das pessoas que não se lembram que cresceram sem um computador por perto. Eu diria que o futuro da música é multimídia, o futuro do multimídia é DVD, e o futuro da música está nas empresas de software. Em cinco anos, gravadoras serão companhias de software e não creio que elas ainda não saibam. Os negócios da música serão salvos por alguém advindo dos negócios de software , que pode impor um novo modelo de negócio no que diz respeito à música.

 

No futuro não haverá loja de discos como as que conhecemos, nenhum produto tangível como nós conhecemos. O CD vai a caminho das fitas de 8 canções e do cassete. Logo, não haverá necessidade de que a coisa seja palpável. Os consumidores fizeram a sua escolha. Eles querem ouvir música enquanto eles estão trabalhando em seus computadores, em um dispositivo portátil como um iPod ou MiniDisc player, ou em um jukebox (semelhante a uma característica do Xbox da Microsoft). As músicas disponíveis digitalmente tem dado opções aos consumidores, e eles gostam de poder escolher. Eles querem músicas nos seus discos rígidos e na Internet, não apenas as músicas comerciais de rádio. Porém as gravadoras ainda desejam forçar a mídia palpável, jogando uma mídia superfaturada nas mãos de consumidores que pretendem obter dados e guardar temporariamente seus arquivos em discos rígidos ou em algo que seja barato, discos descartáveis (CD-R). Se as gravadoras não comecarem a fazer parte do futuro elas serão compradas e convertidas a ele por alguém que faz.

 

As pessoas sempre ouviram música enquanto faziam outras coisas. Essa é praticamente toda a essência da “música americana”. As gravadoras acertaram durante muito tempo quando imaginavam do que se tratava essas “outras coisas”, mas isso foi antes que essa miríade de escolhas ficasse disponível para os consumidores. Já foi o tempo nesse país em que ouvir música no rádio era um milagre. Não é mais nenhum milagre, e se você observa o desenvolvimento tecnológico dos últimos 70 anos dá pra saber o porquê. Foi um milagre após o outro. E mesmo ainda nos dias de hoje o rádio é a condição sine qua non.

 

Da maneira que as coisas estão indo, algumas empresas estão buscando controlar o acesso a todas as informações digitais, e se essa for a atual maneira de administração, tais atividades serão monitoradas. A razão pela qual a RIAA está gritando pelo assassinato sangrento do velho MP3, significa que eles estão perdendo o controle. As pessoas estão fazendo suas próprias escolhas e não estão indo junto com o programa de manipulação que sempre limita as escolhas. Agora que as pessoas estão escolhendo, a indústria, os executivos e os políticos estão chocados.

 

O mesmo argumento se estende à indústria da televisão no que diz respeito ao TiVo e outros gravadores pessoais de vídeo digital (PVRs). Jamie Kellner, presidente e diretor executivo da Turner Broadcasting, grupo no qual se inclui os canais CNN e TNT além de fazer parte da AOL Time Warner, foi questionado, numa entrevista, sobre o porque de os PVRs serem ruins para sua indústria. Ele respondeu que o eram "por causa da mudança de canal à exibição de anúncios... É roubo. Seu contrato com a rede, quando você obtém um espaço para exibição, conta com a certeza de que você estará vendo neste local. De outro modo, você não poderia adquirir a exibição numa base de suporte de anúncios. A qualquer momento que você pula um comercial na TV... você está, na verdade, cometendo um furto." Telespectadores não devem achar este raciocínio persuasivo, mas provavelmente eles serão persuadidos pelo tom ameaçador e acusatório, e rejeitarão Mr. Kellner e suas ideias. Este é um outro exemplo de uma velha mídia tornando-se inútil frente aos avanços das tecnologias. Sim, Jamie, seu trabalho está ameaçado. Você terá que mudar seu modo de pensar para salvá-lo. Abandonar táticas ineficientes.

 

VI. O Papel do NARAS (National Academy of Recording Arts and Sciences)

 

Para que a indústria fonográfica continue a ser relevante, terá que determinar a forma de levar as pessoas a comprar algo que se pode obter gratuitamente. Além da televisão à cabo, publicações impressas e ISPs (Provedores de Acesso a Internet), existe uma indústria que encontrou uma solução para este problema e é melhor a indústria da música ficar sabendo. Essa indústria é a indústria de água engarrafada. Água engarrafada é um mercado em crescente expansão. Mas o senso comum poderia indicar que, como a água é praticamente gratuita (isto é, a água da torneira) as pessoas não pagariam US$ 1 por 500ml. No entanto, a maioria de nós frequentemente fazemos exatamente isso. Por quê? Porque é conveniente, e porque temos sido persuadidos de que é mais seguro, mais puro, que é uma água "melhor". A conveniência se tornou a necessidade e a crença se tornou lucrativa.

 

A indústria da água engarrafada baseia-se no serviço ao cliente. Se o negócio da música decidisse tomar essa atitude e se aliar com os consumidores ao invés de lutar contra eles, é bem possível que seus lucros estariam ainda crescendo. Mas as gravadoras desconfiam de seus clientes mais do que seus clientes desconfiam delas. O círculo não tem muitas possibilidades de ser quebrado, o que de outra forma cria espaços amplos e abertos para o empreendedor, uma "nova" maneira. O NARAS tem que apelar para o novo (a inovação), não o velho (o conservadorismo). O NARAS vai além dos interesses de curto prazo das gravadoras. O NARAS tem obrigação de promover a arte e os artistas que a criaram, obrigação de excelência criativa em sua apresentação, e são essas obrigações, acima de tudo, que devem nortear (definir) suas ações. A relevância do NARAS existe na proporção direta de sua independência.

 

Charlie Feldman sugeriu que o conselho comprometa-se a realizar um "estudo" sobre o assunto. Ele está certo, só que devemos ir mais longe. Acho que precisamos de um simpósio, um encontro de águias. A NARAS deveria assumir a liderança nesta questão. Aqueles que o estão agora levam-nos ao longo de um precipício. A RIAA tem delimitado uma situação que é insustentável e irrealista, pois é anti-consumidor e anti-artista. Os seus interesses e os interesses da NARAS não são os mesmos. Suas soluções não são boas soluções. Eles vão se agarrar no insucesso do passado ao invés de abraçar as oportunidades oferecidas pelo futuro. Eles querem continuar em suas tentativas de criminalizar a sociedade, e de prolongar a liderança sobre o toque das antigas leis em detrimento do tambor das novas tecnologias.

 

Uma coisa é não ter sucesso ou argumentar uma má posição, mas é muito diferente ser estúpido e todos rirem disso, e é aí onde a RIAA acabou ficando. Eles aparentam ser totalmente inúteis, exceto como laranjas de algum esquema de extorsão. É mais do que apenas RP ruim, é ciência ruim. A RIAA chegou às suas conclusões, então procurou por argumentos de apoio, tudo isso enquanto ignorava a realidade, a oportunidade e o fato. Eles insistem demais em sua posição, interpretam erroneamente seus próprios dados e fazem reivindicações duvidosas dos direitos dos artistas quando quem mais abusa dos direitos deles são seus benfeitores, as próprias companhias gravadoras.

 

ZDNet reportou que a venda de CDs ilegais cresceu 50 por cento de 2000 para 2001. Isso se traduz em US$ 4,3 bilhões em vendas de 950 milhões de CDs ilegais. Isso me choca como um problema muito mais sério e óbvio do que a música baixada. Tão sério que o problema dos MP3s empalidece por comparação. Aqui é onde as companhias gravadoras e a RIAA deveriam estar depositando sua fúria moralista, seu dinheiro e sua energia. Aqueles caras maus são realmente maus, lucrando das massas mediante fraude da propriedade alheia, diferentemente de garotos de 14 anos que baixaram música porque não podem pagar 18 dólares por duas músicas que serão substituídas de qualquer jeito em algumas semanas. Igualar o download de música com lucro fraudulento traz descrédito aos esforços da RIAA que lhe são mais importantes e necessários para combater a fraude. Assim, é irônico que se a RIAA obtiver sucesso em arrastar todos de volta ao mercado de CD, quase metade deles serão comprados ilegalmente.

 

Quanto à questão de música que é baixada, o NARAS deve abraçar novas tecnologias, ser a voz da razão nas análises, e agir como árbitro entre as visões conflitantes das várias partes envolvidas. No passado, o NARAS se alinhava com o RIAA e as gravadoras. Isso é um erro, na minha opinião, e espero que as opiniões expressas nesse trabalho nos darão pelo menos uma razão para fazer uma pausa e examinar a fundo nossa posição, bem como a posição, reinvindicações e estatísticas da RIAA e de seus aliados corporativos. Além de tudo, o NARAS não deve ler e aprovar o que é claramente uma posição que serve seus próprios interesses (como aconteceu na transmissão do Grammy do ano passado, quando Mike Greene admoestou e chamou os consumidores de música de ladrões e larápios. O NARAS deve ser a voz independente, a voz da objetividade. O NARAS deve ser o “think tank” dos negócios da música, não um executor ou um PAC (Comitê de Ação Política). O que temos aqui é o potencial de se tornar um líder na nova fronteira dos direitos intelectuais de propriedade, direitos do consumidor, o futuro da música, e o poder da arte em si. Eu digo, se apoderem do momento. Na minha opinião, há um vácuo de liderança quanto a esses assuntos centrais e cruciais e o NARAS deve se impor e preencher o vácuo. É uma oportunidade de ouro.

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